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Apiterapia: “do pasto ao prato”*


Apiterapia, umas das terapias contempladas pela Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares – PNPIC, é a ciência que estuda os benefícios dos produtos apícolas para a saúde dos seres humanos, animais, vegetais e para a nossa terra! Estranho falar assim... Mas eu explico: é bem simples entender que podemos utilizar esses produtos para nós e os animais, pois a avó de muitos com certeza já disse, por exemplo, que se estivermos gripados devemos tomar um chazinho de gengibre, com bastante mel e própolis.







As avós mais arrojadas já indicam mel e própolis para os animais de estimação e a veterinária já utiliza por exemplo esses produtos para prevenção de diversas doenças e tratamentos.

Um exemplo disso é o uso da própolis na piscicultura, para ajudar carpas de cativeiro a melhorarem a imunidade inata e fornecer resistência à patógenos; ou estudos recentes que demonstram diminuição de colesterol e peso de cães com uso da própolis.

Já quando pensamos na saúde da nossa mãe Terra, pensamos principalmente na polinização. A perpetuação de aproximadamente 85% das plantas, conferindo importante equilíbrio aos ecossistemas, é dependente das abelhas. Cerca de 70% das culturas agrícolas necessitam de polinização apícola, garantindo não só a ampliação da produtividade no campo, como também a melhoria na qualidade de frutos e sementes. Cerca de 1/3 de todos os alimentos que chegam às nossas mesas dependem destes polinizadores. A polinização da Melancia e da abóbora são exclusivas das abelhas e culturas como a do abacate, podem incrementar em até 800% de produtividade quando polinizadas pelas abelhas.



São considerados apiterápicos (focando na saúde humana e animal) os produtos principalmente das abelhas do gênero Apis (famosas abelhas européias africanizadas, as que possuem um ferrão) e das tribos Meliponini e Trigonini (essas duas últimas mais conhecidas como abelhas nativas ou sem ferrão).



Dr. Mikhael Marques inspecionando enxame de abelhas.
Autor inspecionando enxame de abelhas.

Os principais produtos utilizados na apiterapia aqui no Brasil são: mel, pólen apícola, própolis, geléia real e a apitoxina. Importante sabermos que a grande maioria das abelhas não produz a maioria destes produtos como mel, própolis e geléia real, assim como não faz uma colônia, sendo chamadas abelhas solitárias, como por exemplo as lindas abelhas da tribo Euglossini, que polinizam orquídeas ou as de outra tribo, Centridini, que coletam óleos vegetais para alimentação de suas larvas e nidificação.


Mel

Corresponde à fonte de carboidrato (açúcares) que as abelhas utilizam em sua dieta. Elas coletam de várias fontes substâncias doces para transformarem em mel como néctar de flores, secreçōes de insetos sugadores ou exsudatos de plantas (estes últimos chamamos de mel de melato, como por exemplo o mel da bracatinga e da aroeira).





O mel é utilizado como precioso alimento desde tempos remotos, os antigos egípcios além de o considerarem alimento sagrado o utilizavam em várias formulações medicinais. Um dos grandes legados desses povos, além do uso alimentar pela nobreza, é a utilização deste produto no tratamento de feridas.


A qualidade do mel varia de acordo com a espécie de abelha que o produziu e da origem vegetal coletada. Podemos consumir um delicioso mel de Apis mellifera proveniente do Assa-peixe (Vernonia polysphaera), encontrado em Minas Gerais; ou um maravilhoso mel de Uruçu amarela (Melipona rufiventris) de um pasto apícola nativo de certas regiões do interior de São Paulo, ou ainda mel de A. mellifera do norte da Alemanha, do período de primavera... Confesso que estes são uns dos meus preferidos.


Envasamento de mel apícola.
Mel de abelhas sendo envasado

Claro que a qualidade varia de acordo com o manejo deste produto. Falta de higiene, principalmente quando colhido por meleiros (ladrões de méis que roubam o mel de enxames, normalmente silvestres, matando os na maioria das vezes), aquecimento (o mel não deve ser aquecido para não perder seus principais compostos, como flavonóides, ácidos fenólicos, vitaminas como C e enzimas como invertase, glicose-oxidase, catalase e suas principais características sensoriais). E também existem méis tóxicos, como é o mel da abelha nativa Lestrimellita limao, conhecida popularmente como abelha limão, espécie que trabalha roubando suprimentos alimentares de outras colméias. A ingestão do mel desta abelha pode ser desastrosa!


Estames florais carregados de pólen alaranjado.
Estames de uma flor carregados de pólen.

Pólen

Principal fonte protéica das abelhas, coletadas dos estames das flores (órgão masculino floral); as abelhas levam para a colméia para fazerem o pão de abelha ou samburá. Considerado um alimento completo por possuir todos os aminoácidos essenciais, ácidos graxos, fibras, carboidratos, vitaminas do complexo B, além de vários micronutrientes.


Estudos demonstram efeito benéfico na prevenção e tratamento de hiperplasia prostática benigna, além de ser um poderoso antioxidante e um alimento muito delicioso, dependendo da florada. (Meu pólen preferido é das palmáceas, possuem aroma e sabor de côco).



Própolis

Do grego pró (em favor), pólis (comunidade). As abelhas utilizam essa substancia para vedar a colmeia e manter o ambiente mais limpo de impurezas, inclusive certos microorganismos não desejados por elas. A própolis é uma substância composta principalmente por resinas vegetais, cera de abelha, óleos essências e pólen.


Vai depender sua composição de acordo com a espécie de abelha e da fonte da resina. As mais conhecidas são as própolis das abelhas Apis, principalmente as chamadas verde e vermelha. Esta primeira é retirada de plantas que se encontram principalmente no sudeste Brasileiro, chamadas vassourinha ou alecrim do campo (Baccharis dracunculifolia) e a segunda de uma planta encontrada em manguezais, conhecida como rabo de bugio (Dalbergia ecastophyllum).


As abelhas nativas fazem também essa substância, mas normalmente juntam com barro formando o geoprópolis. Todas elas muito utilizadas popularmente, e já encontram muitos estudos científicos, que demonstram propriedades anti-sépticas, anti-inflamatórias, antioxidantes, antibacterianas, antimicóticas, antifúngicas, anti-úlceras, anticâncer e imunomoduladoras.


Geléia Real

Secreção de abelhas operárias, exclusiva das abelhas do gênero Apis, utilizada por todas as castas no início de suas vidas, e no caso da rainha como alimento exclusivo até o final da vida dela.


Considerando a longevidade média de 80 anos e guardadas as mesmas proporções, a geléia real proporcionaria ao ser humano a possibilidade de viver 3333 anos.


Abelha rainha e operária possuem a mesma genética, mas tanto a alimentação quanto o estilo de vida são diferentes. Enquanto uma operária vive em média de 30 a 45 dias, as rainhas podem viver até seis anos. Mais de 40 vezes do que uma operária.


E esta longevidade se deve principalmente à sua dieta baseada em geléia real. Elas possuem energia e vitalidade impressionantes: podem fazer a postura de até 2.000 ovos por dia e um ovo a cada 72 segundos, o que representa o dobro de seu peso em ovos todos os dias.


A composição da geléia real é bem interessante: água, proteínas (aqui merece destaque a Royalactin, responsável por grande parte dos efeitos biológicos deste produto), carboidratos, lipídios e outros compostos (ácido 10-hidroxi-2-decenóico - HAD), que possui algumas propriedades imunomoduladoras, ácidos graxos, acetilcolina, polifenóis, hormônios- testosterona, progesterona, prolactina, estradiol, etc).


Existem vários estudos científicos com este incrível produto, que mostram incremento da eritropoiese (aumento dos glóbulos vermelhos no sangue), aumento da conversão de hormônios masculinos e melhora da fertilidade.


Abelha sobre inflorescência amarela
Abelha sobre inflorescência.

Apitoxina

É o veneno das abelhas, este item também faz parte das abelhas do gênero Apis. Elas a utilizam para se defender de possíveis predadores, através de seus ferrōes.


Utilizada também desde a antiguidade, hoje vários artigos científicos estudam seus efeitos fisiológicos como potente analgésico (isto é bem curioso pois uma picada dói bastante, mas o efeito secundário é analgesia), anti-inflamatório, antitumoral e imunoestimulante.



A apitoxina é uma fonte rica em peptídeos farmacologicamente e imunologicamente ativos. Os principais componentes da apitoxina são proteínas (enzimas): melitina, apamina; aminas fisiológicamente ativas: histamina, dopamina e noradrenalina; além de outros elementos como açúcares, carboidratos, fosfolipídeos, feromônios, ácido fórmico, ácido clorídrico, ácido ortofosfórico, colina, triptofano e microelementos como ferro, iodo, potássio, enxofre, cálcio, magnésio, cobre e zinco.


Nos lembremos desse célebre frase de Paracelsus: “Todas as substâncias são venenos, não existe nada que não seja veneno. Somente a dose correta diferencia o veneno do remédio.”


*Título parafraseado do querido professor Roberto Dias do IFCE


Dr. Mikhael Marques

Médico (CRM: 57030), professor da Pós-Graduação de Fitoterapia da USP, palestrante, escritor, apicultor e meliponicultor.

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