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O Cheiro das Plantas Pode Afetar Insetos-Praga

Atualizado: 21 de jun. de 2020

Os insetos-praga se orientam nos ambientes através de pistas visuais e olfativas. Pistas visuais são as cores que os insetos conseguem enxergar, no entanto há uma limitação pois muitas plantas possuem a cor verde em comum, assim geralmente as pistas visuais funcionam mais a curtas distâncias.


Ilustração comparativa para melhor compreensão, de compostos voláteis funcionando com pistas de orientação. Na primeira imagem, Pica-Pau usa pistas químicas (cheiro) para buscar alimento. O mesmo acontece na segunda imagem, onde insetos usam o cheiro da planta hospedeira para localizá-la. Imagens: www.cinderelasliterarias.wordpress.com (Pica-Pau), e Ayala et al. (2019) (Planta-Voláteis-Insetos).



As pistas olfativas são pistas químicas liberadas pelas plantas através de compostos ou substâncias voláteis. Os insetos-pragas conseguem percebê-las até mesmo a longas distâncias, podendo identificar diferentes espécies de plantas.

Afinal, apesar das plantas muitas vezes liberarem os mesmos voláteis, cada espécie vegetal - ou até mesmo cada variedade dentro da mesma espécie -possui quantidades e tipos específicos de compostos voláteis, formando uma mistura única para cada espécie, sendo esta detectada pelos insetos-praga por meio do olfato.


Esta mistura volátil liberada pelas plantas funciona como uma pista de busca, reconhecimento, e aceitação da planta hospedeira pelos insetos. Plantas fornecem abrigo, alimento, locais para acasalamento e para oviposição (colocação de ovos). No entanto, existem substâncias químicas que podem afetar o desenvolvimento dos insetos, elevando a sobrevivência ou ocasionando a morte destes organismos. Com o auxílio do olfato, alguns insetos conseguem reconhecer tais substâncias, podendo aceitar ou não aquela planta como sua hospedeira.


Isso acontece porque após localizar a planta por meio do cheiro liberado por essa no ambiente, o inseto pode associar esse cheiro a características positivas ou negativas da planta, como valor nutricional e presença de compostos tóxicos. Consequentemente, o cheiro da planta pode ajudar o inseto a reconhecer se aquela planta é adequada ao seu desenvolvimento ou à sobrevivência de sua prole.


Compostos voláteis de plantas podem ser repelentes e/ou tóxicos, afetando a biologia e o desenvolvimento de insetos-praga. Substâncias tóxicas podem causar inclusive a morte, enquanto compostos repelentes apresentam um cheiro desagradável ao inseto, fazendo com que este não se aproxime da planta. Vegetais que liberam compostos tóxicos e/ou repelentes muitas vezes podem ser caracterizadas como plantas resistentes.


A utilização de plantas resistentes em sistemas agrícolas já ocorre para diversas espécies vegetais, trazendo bons resultados no controle de insetos-praga. Isso acontece porque plantas resistentes normalmente exigem menos pulverizações com inseticidas químicos sintéticos, minimizando os custos de produção, possibilitando associação com métodos de controle mais sustentáveis como o controle biológico, reduzindo assim os impactos ambientais da atividade agrícola.


Já que o cheiro da planta pode afetar insetos-pragas, uma das maneiras que a resistência de plantas pode ser avaliada é através de experimentos olfativos, onde são oferecidos ao inseto cheiros de diferentes plantas, e observa-se o comportamento de escolha do inseto, com foco na repelência e atratividade destes cheiros. Este tipo de experimento é frequentemente realizado por meio de um sistema conhecido como olfatômetro, conforme ilustrações abaixo.


Esquema de experimento olfativo com inseto-praga em um olfatômetro de quatro braços, no qual um braço do olfatômetro contém voláteis da planta (¨in vivo¨) e é comparado com três braços com ar puro (branco). Imagem da autora.



Sistema de Olfatometria. Vasos das mudas cobertos com papel alumínio para evitar liberação de compostos voláteis do substrato. Mudas envolvidas em sacos de poliéster, totalmente vedados com fita teflon. Sacos conectados ao olfatômetro de quatro braços de acrílico via mangueiras de silicone onde o ar passa no sistema de olfatometria por meio de bombas de ar com medidores de vazão. Imagem da autora.



Assim, estudos relacionados ao cheiro liberado por plantas, que testem sua atratividade e repelência aos insetos-praga, são fundamentais, pois colaboram com a identificação de plantas resistentes a insetos, fornecendo assim informações importantes para obtenção de novas alternativas eficientes e sustentáveis no controle de pragas.











Jéssica Fontes Vasconcelos

Engenheira Agrônoma

Mestre em Fitotecnia



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