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O epitáfio das revoluções tecnológicas

Desde que o mundo é mundo, de tempos em tempos, a história é marcada por revoluções. Na agricultura, depois da sedentariedade do homem, as situações se moldaram conforme necessário.

A mulher, inicialmente agricultora, que com sua delicadeza e paciência conduzia os vegetais a campo, passa a provedora das condições de vivência dentro do lar, enquanto que seu companheiro, caçador e guerrilheiro, assume as responsabilidades da arte de cultivar a terra e fazer dela brotar o alimento de cada dia.


Século 18, Europa. Muitas industrias ocupam seus lugares, instigando a migração para os arredores dos centros urbanos. A densa fumaça lançada incessantemente aos céus era sinônimo de grandeza, de conquistas e dominação. A limitada mão-de-obra no campo, em paralelo ao aumento da necessidade de matéria prima para alimentar as indústrias, marcam o início da modernização agrícola, que se desenrola até os dias atuais. A tão sonhada produtividade, onde a mágica de produzir mais com menos acontece, começa a ser pensada e a mecanização a impulsiona. Surgem as empresas especializadas na automatização de processos como preparo de solo, semeadura e pulverização.


Anos além...século 20. O aumento nas áreas de cultivo e, por consequência, a adaptação de organismos que passam a se alimentar daquilo que também alimenta o homem, fomentam o desenvolvimento de tecnologias para fortalecimento das plantas e combate às pragas. Adubos, fertilizantes, inseticidas...a comercialização destes produtos passa a ser intensa e a agricultura agora faz parte de algo maior, o agronegócio.


A Revolução Verde também levantou a bandeira do combate a fome pelo aumento de produtividade, o que não ocorreu como esperado. Ao contrário da extinção da fome, as consequências do uso indisciplinado de ativos químicos aconteceram, e rápido.

Ressurgência de pragas, contaminação ambiental, desequilíbrios. Então, a era da agrobiotecnologia surge com novos processos e uma visão mais humana para que estes problemas pudessem ser resolvidos. Sustentabilidade, engenharia genética, transgenia, manejo integrado de pragas (MIP)... e hoje?


As revoluções continuam a acontecer, mas com uma velocidade incontavelmente superior. O que antes mudava em séculos, muda hoje do dia para a noite, no sentido literal. A agricultura evolui a passos rápidos, nos seus mais diversos planos. Em especial, sobre os insetos, algo de interessante tem acontecido. Não é novidade que muitas espécies continuam a causar danos irreparáveis ao agricultor. Porém, os números mostram que a utilização de organismos vivos utilizados para o combate destas pragas cresce rapidamente e numa tendência de aumentar a cada ano. Percebem a novidade? Aquilo que desde sempre existiu, e que em certo momento foi ignorado, é agora a solução para grandes problemas. O Controle Biológico!


O MIP, que há pouco apresentava como pilar quase único de sustentação as moléculas químicas,

sintéticas, tem hoje grandes aliados: os micro e macrorganismos! As revoluções neste setor refletem a necessidade de interação entre espécies e de equilíbrio. A mecanização do século 18 encoraja a automação do século 21. Fábricas, as chamadas Biofábricas, produzem milhões de vidas para o campo, as quais se fazem efetivas no controle das pragas através da renomada Tecnologia de Aplicação. Máquinas agrícolas que permitem a automação de processos antes inviáveis. Bactérias, fungos, vespas, ácaros...aplicados nas lavouras. Cenário interessante, não?


Imagine uma gota de inseticida químico...o que há nela? Basicamente, o ingrediente ou princípio ativo, aquele que de fato irá causar reações sobre o inseto e outros ingredientes, já chamados de inertes, que conferem a formulação do produto para ser levado ao campo. Pensemos agora em uma das formas de aplicação de inseticidas macrobiológicos: gotas. Sim, gotas! O que de fato há nestas gotas? A mesma coisa que há na química, mas neste caso o princípio ativo é a própria vespa (insumo macrobiológico), que irá causar a morte do alvo/praga, e a cápsula, envoltório que protege estas vespas e que permite a formulação adequada para que este produto seja levado a campo.

Imagine agora a forma como um produto químico é aplicado. Pode ser terrestre, o mais usual e utilizado há mais tempo e também aérea. Isso se reflete para os produtos macrobiológicos? Sim! A aplicação destes bioinseticidas a campo pode ser feita das duas maneiras (terrestre e aérea) e por diferentes máquinas agrícolas (tratores, aviões, drones...). Percebem como a tecnologia de aplicação já utilizada para os químicos se encaixa muito bem para os macrobiológicos? E paramos por aqui? Não.


A cobertura de um produto químico pode ser comparada a capacidade ou raio de dispersão de uma vespa parasitoide, a dose dos produtos se equivale ao número de indivíduos/parasitoides por hectare. Onde quero chegar com isso?

A ciência nunca para! O que é novo hoje, será velho amanhã... o que é bom hoje, pode não ser depois. O que outrora não era visto com importância passa a ser e, peças de outros cenários preenchem o atual quebra-cabeça. Estamos no tempo da mecanização dos agentes macrobiológicos e isso permitirá a efetiva interação destas tecnologias com as de pulverização. As ferramentas “química e biológica” do MIP estão, a cada dia, mais factíveis de serem utilizadas em real integração e vamos além: os manejos inteiramente biológicos apresentam-se em crescente efetividade em decorrência da mecanização de tantos processos. A natureza nos mostra o caminho... seguimos com os ciclos da vida.







Gabriela Vieira Silva

Bióloga, Eng. Agrônoma e Entomologista.

Sócia-fundadora da Agribela, empresa que desenvolve tecnologias para o manejo de pragas agrícolas.

Entusiasta das rEVOLUÇÕES da vida =D


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