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Por Que os Mosquitos Nos Adoram?

Atualizado: 16 de jun. de 2020

Mosquitos podem transmitir doenças terríveis e potencialmente fatais. Neste artigo, entenda porque estes insetos estão frequentemente ao nosso redor e o que fazer para evitá-los.

Muitos insetos são lindos e benéficos, a julgar pelas abelhas e outros polinizadores. Mas existe alguém que genuinamente gosta de mosquitos? Imagem: Егор Камелев.


Existem mais de 3.500 espécies de mosquitos no mundo e muitas delas se alimentam de sangue de mamíferos, aves, répteis e, pasmem, até mesmo de peixes.

Mosquitos são os animais que mais matam pessoas no planeta. Todos os anos, entre 700 mil e 1 milhão de pessoas morrem devido a doenças por eles transmitidas, como dengue, chikungunya, zika, malária e febre amarela, por exemplo. Além disso, seus zumbidos são chatos, e suas picadas causam irritação e coceira.


Nem os peixes escapam dos mosquitos. Na foto: mosquito picando peixe saltador do lodo (mudskipper), nas ilhas Ryukyu, Japão. (Imagens: Okudo et al., 2004)



Por que os mosquitos nos perseguem?


Antes de continuar é bom esclarecermos que não devemos generalizar: nem todos os mosquitos nos perseguem, apenas algumas espécies o fazem. Por exemplo: Aedes aegypti, Culex quinquefasciatus, e Anopheles gambiae. Estas são responsáveis pela transmissão da dengue, filariose, e malária, dentre outras.


E, pra ser justo, na grande maioria das vezes, apenas as fêmeas destas espécies nos perseguem. E elas só o fazem quando estão na fase de “busca hospedeira”. Vou explicar melhor.


A "agenda" de uma fêmea de mosquito adulta é basicamente constituída de 4 tarefas:


(1) acasalamento,

(2) busca hospedeira,

(3) digestão, e

(4) gravidez.


Neste vídeo eu apresento a biologia e comportamento de mosquitos, informações que podem te ajudar a combater estes seres pouco benquistos.



Fase 1 - Acasalamento

Após completar a fase aquática (quando ovos, larvas e pupas do mosquito se desenvolvem em água parada) se alimentando de detritos orgânicos e microrganismos, a fêmea atinge a fase adulta e emerge da água como um mosquito propriamente dito.


Como uma jovem adulta recém-emergida, essa fêmea não se interessa por sangue, portanto ela não vai te importunar. Nesta idade, ela precisa basicamente de duas coisas: substâncias açucaradas e acasalamento.

O açúcar é necessário para fornecer energia, especialmente para o vôo. Ele é consumido na forma de néctar, seiva de plantas, sumo de frutas, e orvalho doce (líquido açucarado liberado por insetos sugadores, como pulgões e cochonilhas).


O acasalamento normalmente só ocorre uma vez. A fêmea guarda o sêmen recebido do macho em seu abdome, usando-o para fertilizar seus ovos ao longo de sua vida. Após o acasalamento, ela sofre mudanças fisiológicas e então passa a se interessar por sangue! É aí que começa a fase 2.


Fase 2 - Busca hospedeira

Após o acasalamento, as fêmeas não se tornam automaticamente grávidas. Para que isso aconteça, elas precisam amadurecer seus ovos, o que exige consumo de proteínas e minerais como o ferro, ambos abundantes no sangue de vertebrados.

Assim, logo após a cópula, as fêmeas sofrem um “click” interno e passam a buscar fontes de sangue, também conhecidas como hospedeiros, incluindo você e eu.


Uma série de sensores especiais são acionados na cabeça da fêmea do mosquito quando ela passa da fase 1 (acasalamento) para a fase 2 (busca hospedeira).


Desde o nosso cheiro, a cor das nossas roupas, a nossa temperatura corporal e até a nossa voz são usados pelas fêmeas como pistas para nos encontrar. Por isso, é praticamente impossível nos esconder de mosquitos nesta fase.


Após sugar nosso sangue, a fêmea sofre um segundo “click”, que faz com que ela deixe de se interessar por nós e entre numa espécie de sesta, iniciando-se aí a fase 3.


Mas isso só ocorre quando a fêmea consome uma quantidade mínima de nutrientes capaz de distender significativamente o seu abdome.


Se a quantidade sangue consumida na primeira “sentada” não for suficiente, a fêmea vai continuar na fase 2 até que seu abdome esteja cheio o suficiente. Quando isso acontece, a fêmea apresenta um abdome inchado pelo volume de sangue consumido.


Recentemente, descobriu-se que o sangue é consumido não só para satisfazer as necessidades de proteínas e minerais do mosquito, mas também como uma forma de hidratação das fêmeas.


Fase 3 - Digestão

Nesta fase, a fêmea fica de 2 a 4x mais mais pesada e tem maior dificuldade para voar. Assim, ela procura um lugar tranquilo, preferencialmente úmido e escuro (o banheiro normalmente é um ótimo lugar pra isso), onde ela vai passar de 4-5 dias quietinha, digerindo todo o (nosso!) sangue.


A fêmea investe a maior parte dos nutrientes do sangue no amadurecimento dos ovos. À medida que o sangue é digerido, é possível notar que a barriga da fêmea passa gradualmente do vermelho sangue para o marrom escuro/preto, e então para o cinza.


Então, a fêmea torna-se oficialmente “grávida”, dando-se início à fase 4.


Fase 4 - Gravidez

Nesta fase, a fêmea sofre um terceiro “click”, deixando a penumbra e tornando-se ativa novamente. Contudo, desta vez ela não busca hospedeiros, mas sim um local para colocar seus ovos, também conhecido como sítio de oviposição (ovipositar=colocar ovos).


Estes sítios são basicamente locais com água parada. Poças d’água, bromélias, pneus abandonados, ou aquele pratinho de vaso de planta no qual você esqueceu de colocar areia.


Neste período, todos os sentidos da fêmea são empregados para a escolha de locais não apenas com água, mas também alimento (detritos orgânicos e microrganismos) suficiente para suas larvas se desenvolverem fortes e saudáveis.



1, 2, 3, 4, 1, 2, 3, 4, 1, 2..

Ao término da fase 4, a fêmea renova a sua "agenda", reiniciado um novo ciclo. Contudo, ao voltar para a fase 1, ela fêmea não precisa acasalar de novo, como explicado anteriormente. Com isso, a fêmea economiza tempo e energia, focando no amadurecimento de mais ovos.


Uma única fêmea pode repetir estes ciclos inúmeras vezes ao longo de sua vida, a depender da sua longevidade e das condições ambientais, como temperatura, umidade, disponibilidade de alimento e locais para postura de ovos. Em laboratório, é normal que cada fêmea complete de 4 a 6 ciclos ao longo de sua vida.


Razões para gostar

Conhecendo-se as diferentes fases do ciclo de um mosquito fica fácil responder a pergunta inicial: “por que os mosquitos nos perseguem?”. E a resposta é bem simples: porque nós somos fontes de proteínas, minerais, hidratação, e abrigo tanto para fêmeas adultas quanto para as larvas do mosquito.


Existem outras razões mais específicas envolvidas, claro, como nosso cheiro, gosto, as bactérias que carregamos na pele, e até nosso tipo sanguíneo.


Sim, os mosquitos “experimentam” o odor e sabor de químicos liberadas pela nossa pele antes de decidirem se vão sugar nosso sangue ou não.


Nossa temperatura corporal também é dica valiosa para os mosquitos. Os mosquitos são sensíveis até mesmo mesmo à voz humana.


Contudo, o seu interesse por estas características químicas e físicas não teria surgido se elas não estivessem associadas ao alimento e abrigo que lhes proporcionamos.


Mas e daí?

Se você chegou até aqui pode estar se perguntando: “tudo bem, muito legal esse ciclo aí, mas pra que serve todo esse conhecimento se ele não me ajuda a me livrar dos mosquitos?”


Calma. Como já disse Sir Francis Bacon: “conhecimento em si é poder”.


O que quero dizer é que, conhecendo-se bem os nossos inimigos, podemos criar táticas para derrotá-los. Esta estratégia é comum no meio esportivo, quando uma equipe estuda minuciosamente o comportamento da equipe rival antes de uma partida, ou quando investigadores estudam o modus operandi de criminosos com objetivo de prendê-lo ou de alertar a população.


Sabendo-se que os mosquitos precisam do nosso sangue para se reproduzir, cabe a nós impedir que eles tenham acesso a esse sangue. Isso pode ser feito com uso de ventiladores, repelentes, uso de telas anti-mosquitos em portas e janelas, e uso de mosquiteiros sobre a cama, por exemplo. Comportamento defensivo também ajuda: não seja um hospedeiro fácil. Mosquitos aprendem a distinguir hospedeiros mais reativos daqueles menos reativos e se lembram deles pelo seus cheiros.


O conhecimento da biologia reprodutiva dos mosquitos nos indica que se eliminarmos locais com água parada então eliminaremos também os mosquitos. É essencial que caixas d'água, piscinas, pratinhos de plantas, bromélias, pias, tanques, pneus, e objetos deixados a céu aberto sejam vistoriados periodicamente para eliminação de água parada.


A redução de locais de "descanso" de fêmeas grávidas também é uma boa estratégia para reduzir os mosquitos. Se puder reduza a disponibilidade destes locais. Além disso, ao invés de deixar os mosquitos te sugarem, você pode suga-los passando o aspirador de pó (sem o bico para piso) debaixo de camas, guarda-roupas, armários, pias, e locais de penumbra. O mesmo pode ser feito usando-se raquetes elétricas (daquelas feitas pra matar mosquito).


Evite ao máximo o uso de inseticidas, mas se acabar optando por eles, faça a aplicação com o devido cuidado. Siga as instruções do rótulo do produto e respeite o período de residual. Tome cuidados extras se tiver crianças e animais em casa.


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